domingo, 24 de abril de 2011

BIZARRE LOVE


















"Everytime I Think Of You, I Feel A Shot Right
Through With A Bolt Of Blue"

"that's the way that is goes"
"well everyday my confusion grows"
and...
"I'm not sure what this could mean..."

*New Order: Bizarre Love Triangle"

sábado, 9 de abril de 2011

NÃO POSSO MAIS VIVER SEM MIM




















Essa semana assisti a um filme, daqueles com os quais a gente cruza por acaso, na beira da madrugada e ainda titubeando se banca dormir duas da manhã numa segunda-feira. Banquei. Nada é por acaso.

Já falei algumas vezes aqui, desde minhas noites viradas naquele quarto do subsolo da residência em Londres, em véspera de provas, que uma grande ficha me caiu quando escutei de uma das minhas melhores amigas, por skype-phone, "a gente nasce sozinho e vai morrer sozinho, entenda e aceite isso". Não me refiro ao lado dramático que esse pensamento carrega, queria falar do lado insightful de novo. Se vc se dá conta de que qualquer de pendência do Outro, para uma mínima coisa que seja, é desperdício, vc cresce tanto, tanto que, quem sabe, encontra de vez a felicidade. Ó que legal: se eu entendo que eu só tenho a mim mesma, eu nunca estarei solitária porque eu sempre vou poder contar comigo e nunca vou me decepcionar :-)

No filme, uma coadjuvante diz a frase-chave à protagonista, mais jovem que ela e que acabou de abandonar a própria festa de casamento (incluindo o noivo) por causa de uma grande decepção (causada pelo próprio). O caso é que uma única traição envolvendo um casal de amigos, e trazida a público por um deles, desencadeia uma sequência de lavagem de roupa suja em que todos os personagens se revelam ou se descobrem tendo sido traídos. No final (desculpem contar o final), após decisão da noiva de não se jogar de um penhasco, a mulher-madura, que acabara de ter sua ficha também 'caída', diz que só é possível ser correspondido no amor se vc for livre (por favor leia isso algumas vezes mais, repetindo para si mesmo). E a cena final é ela voltando a pé por uma estrada e se deparando com uma encruzilhada. Escolhe ir para o lado esquerdo. Pronto.

"Ser livre consiste em assumir que vc está sempre sozinha, primeiro", ela completa.

Bom Abril para vocês.

PS1. esqueci o nome do filme.
PS2. qualquer semelhança com o post anterior é mera coincidência (existe coincidência?)


Música: Ultraje a Rigor - "Eu me amo"

quinta-feira, 10 de março de 2011

MANTRA















"Só o amor verdadeiro liberta"

Arte: Banksy

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

TODA NUDEZ SERÁ RECOMPENSADA




















Preciso abrir uma exceção e colar aqui, na íntegra, o texto de outra pessoa. O Calligaris se superou, se é que isso ainda é possível, e me entregou de bandeja o que será um dos maiores insights de toda a minha vida. A compreensão de por que me sinto alien no mundo. Pensem no quanto a consciência da nossa condição é, ao mesmo tempo, depressiva e libertadora. E pensem em como a ignorância dessa condição nos torna mesquinhos, ou perdidos, ou com a existência perdida, talvez. Matrix. Para mim, humildade é a consciência dessa condição de se saber simplesmente menos que a carcaça. E essa humildade engrandece, vejam que paradoxo legal!
(obrigada pela dica, Fabi)

"Todos os reis estão nus" (Folha de SP, 03/02/2011)

Já está em cartaz (pré-estreia) "O Discurso do Rei", de Tom Hooper. O filme foi indicado ao Oscar em doze categorias; a atuação de Colin Firth (o rei) é tão inesquecível quanto a de Geoffrey Rush (o terapeuta). Resumo. Quando George 5º morreu, o filho primogênito lhe sucedeu (com o nome de Eduardo 8º), mas por um breve período: logo ele abdicou, por querer uma vida diferente daquela que o ofício de rei lhe proporcionaria. Com isso, o cadete, duque de York, tornou-se rei -inesperadamente e num momento decisivo: era a véspera da Segunda Guerra Mundial. O duque de York (e futuro George 6º) era tímido, temperamental e, sobretudo, gago -isso numa época em que, graças ao rádio, a oratória dos ditadores incendiava as praças do mundo: na hora do perigo, para que serve um rei se ele não consegue ser a voz que fala para o povo e por ele? O filme, imperdível, conta a história (verídica) da relação entre o rei e seu terapeuta, Lionel Logue, um fonoaudiólogo australiano pouco ortodoxo. Eis algumas reflexões saindo do cinema. 1) Qualquer terapia começa com uma dificuldade prática: uma impotência, a necessidade de um conselho, uma estranha tensão nos ombros, uma gagueira. A relação terapêutica se constrói a partir dessa dificuldade: o terapeuta é quem saberá nos livrar do transtorno, seja ele fonoaudiólogo, terapeuta corporal, eutonista, psi (de qualquer orientação) etc. Quer queira quer não, a ação do terapeuta é dupla: relaxaremos o ombro, exercitaremos a dicção ou endireitaremos o pensamento do paciente, mas, de uma maneira ou de outra, acabaremos mexendo nas fontes de um mal-estar mais geral que talvez se manifeste no transtorno. 2) Há, às vezes (mais vezes do que parece), escondidas no nosso âmago, ambições envergonhadas ou vergonhosas, que não confessamos nem a nós mesmos. Quando sua realização se aproxima, só podemos inventar jeitos de fracassar, porque, no caso, não nos autorizamos a querer o que desejamos. Obviamente, detestamos a voz do terapeuta que se aventura a nos dizer o que queremos mas não nos permitimos. Essa voz atrevida é a única aliada de desejos que são nossos, mas que encontram um adversário até em nós mesmos. 3) No trabalho psicoterapêutico, o segredo de polichinelo é que, por mais que suspendamos diplomas em nossas salas de espera, somos todos leigos e aventureiros. Não sei se existem cursos ou estágios que ensinem a ouvir o que Logue ouve e entende do desejo escondido do duque de York. Certamente não há formações que ensinem a coragem maluca do terapeuta do rei, seu esforço para se colocar, sem medo, ao serviço do que o duque e futuro rei não quer saber sobre si mesmo. 4) Pensando bem, Logue (como Freud) tinha, sim, uma formação que o qualificava como conhecedor da alma humana e especialmente da dos reis: a leitura de Shakespeare. 5) Quase sempre, chega o dia em que um paciente descobre que seu terapeuta sabe muito menos do que ele (o paciente) imaginava. O paciente pode até pensar que o terapeuta, atrás de seu bricabraque de saberes práticos, é um impostor. É ótimo que isso aconteça, pois, geralmente, é sinal de que o paciente descobriu que ele também é um impostor. No caso, o terapeuta não é qualificado para ser terapeuta, exatamente como o rei não é qualificado para ser rei. (Parêntese: em geral, é assim que nasce uma amizade: os dois se tornam amigos por aceitarem estar ambos nus, como o rei da fábula - mesmo que seja só por um instante.) Não há como ser terapeuta ou rei sem alguma impostura. Todos carregamos máscaras. Avançamos mascarados, enfeitados por mentiras que nos embelezam. Até aqui, tudo bem: essa impostura é uma condição trivial e necessária da vida social. Os melhores conhecem sua impostura e sabem que não estão à altura de sua máscara. Os piores se identificam com sua máscara. Acreditar nas máscaras que vestimos é um delírio que nos torna perigosos. Não há diferença entre o rei que acreditasse ser rei, o terapeuta que acreditasse ser terapeuta e o anjo exterminador que saisse atirando e matando, perfeitamente convencido de ser uma figura do apocalipse. Os três teriam isto em comum: acreditariam ser a máscara que eles vestem. Enfim, que Deus nos guarde de todos os que não enxergam sua própria nudez.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

BLOCO DO EU SOZINHO




















foto: Júlio Silva, fundador, tocou seu bloco do carnaval de 1919 ao de 1979.

Foi no carnaval de 1919 que Júlio Silva fundou o Bloco do Eu Sozinho", desfilando pelas ruas do Rio com uma placa que indicava este nome. O bloco era composto apenas por ele, claro, sinalizando solidão em plena folia. Certa vez em Londres, cheia de coisa pra fazer, com um monte de amigos na vibe de curtir a vida, recorri à minha melhor amiga, por skype, pra dizer que nunca tinha me sentido tão sozinha na vida. Como podia? Seu insight foi determinante dos meus momentos introspectivos que se seguiram àquela revelação, pelos meses e anos subsequentes e que hoje, acho, não me abandonam mais: "a gente nasce sozinha e vai morrer sozinha". Gênio. Aceite essa condição, humana, e você nunca sofrerá solidão.

A seguir, uma cotribuição da Lelê, mãe da PV, com o "Bloco da Solidão" (por Maysa)

Angústia, solidão
Um triste adeus em cada mão
Lá vai meu bloco vai
Só desse jeito é que ele sai
Na frente sigo eu levo um estandarte
De um amor do amor que se perdeu
No carnaval lá vai meu bloco
E lá vou eu também
Mais uma vez sem ter ninguém
No sábado e domingo segunda e terça-feira
E quarta-feira vem o ano inteiro
É todo assim por isso quando eu passar
Batam palmas pra mim
Aplaudam quem sorrir
Trazendo lágrimas no olhar
Merecem uma homenagem
Quem tem forças pra cantar
Tão grande a minha dor pede passagem
Quando sai comigo só
Lá vai meu bloco vai
Laia laia laia laia laia laia

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

FILOSOFIA DE FINAL DE ANO E A LÓGICA DOS OPOSTOS
















Queria terminar o ano garantindo o post de dezembro. Esse ano foi uma mistura tão grande se emoções que, descobri, só em Melanie Klein se pode achar alguma explicação. Disse a distinta senhora, discordando de Freud, que uma análise não consiste em trabalhar conteúdos reprimidos, mas sim em equacionar dois sentimentos de natureza oposta e complementar que determinam o psicológico de todo ser humano: a ansiedade depressiva e a ansiedade persecutória. Uma nasce do ODIAR as coisas que estão erradas e a outra do AMOR pelo lado certo dessas mesmas coisas. Parece complexo, não é e tem uma explicação ótima:
"É necessário que o paciente perceba que o mundo não funciona em preto e branco, e que é possível amar e odiar o mesmo objeto, sem medo de destruí-lo."
OK, então eu prefiro ser uma metamorfose ambulante*, situada entre o amar e o odiar, a descobrir que passei a vida sem me dar conta de que não existe estabilidade real e nem razão para sofrer por isso. Fiquem com essa e sintam-se amados, pq se vcs lêem meu blog é pq vcs estão entre os amados que conhecem minhas filosofias mais íntimas.

Que passe logo o Natal, que se apresente o réveillon delicioso e que o tempo até o carnaval seja só alegria. Afinal, o melhor da festa é esperar por ela e não há dia difícil pior que a Quarta de Cinzas.

* Metamorfose Ambulante - Raul Seixas

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

DESILUSÃO









Talvez a maior sabedoria esteja em saber descaracterizar.

Descaracterizar o seu amor platônico, a sua expectativa de trabalho, o seu desafeto, a sua noite de hoje. É o que chamam de ‘não ter expectativas’, mas pra mim a coisa é um tanto mais complexa.

Descaracterizar pode ser tirar do pedestal, pode ser desacreditar, ou mesmo deixar de achar tão bom. Mesmo que te pareça forçado, vale à pena pensar naquela coisa tão incrível como só mais uma ilusão, um marketing pessoal bem feito ou, pior, uma grande mentira.

Sim, porque provavelmente, muitas das coisas que vc ama mas não tem são representações da coisa real que vc cria na sua cabeça. Aquelas coisas que vc insiste em ter mas que insistem em te fazer crer que não são para vc. A vida, como venderam pra gente, tem o dom de iludir*.

Dizem que anti-depressivos tiram de vc aquela emoção descontrolada do gostar, do querer, do sofrer e te deixam meio apático. Isso nada mais é que olhar a vida de cima, rir dela, conseguir se projetar num futuro onde muitas coisas nem terão toda aquela importância.

Então anti-depressivos podem ser completamente desnecessários se vc aprender a descaracterizar tudo aquilo que acredita ser melhor que vc e, portanto, inatingível. Descaracterizar, então, é a fórmula para desiludir.

* Dom de Iludir - Caetano Velloso