
terça-feira, 2 de junho de 2009
segunda-feira, 1 de junho de 2009
TIME-SPACE COMPRESSION

Dizem por aí que o mundo está acelerado. Que as coisas estão acontecendo com mais frequência e intensidade (e a culpa parece ser da dobradinha tecnologia-consumo, mas isso não vem ao caso agora). Pode parecer ruim na hora que rola, mas eu tendo a achar que no fim das contas o resultado tem sua razão (positiva) de ser. Por exemplo, se você embarca em alguma parada meio errada você deve descobrir rapidinho que aquilo ali não vai dar certo porque as evidências debruçam, se jogam, se esfregam praticamente no seu nariz. Não assuste, agradeça. Um amor 'errado', por exemplo, logo se revela problema e vc, em vez de ficar 1 mês iludido, fica 1 semana. Se vc tem essa sensação de que a aceleração da velocidade ta aumentando exponencialmente, meu amigo, saiba que não está sozinho. Nas ciências sociais o termo atende pelo nome de time-space compression* e aparece principalmente nas obras sobre globalização e pós-modernidade. É claro que eu to usando o termo aqui de forma bem particular, os acadêmicos achariam tudo isso bullshit. Mas minha preocupação não é científica, é bem "ordinary" mesmo. Por mais esotericamente brega que esse pensamento possa parecer, duvido que coisa assim nunca tenha passado pela sua cabeça. Se vc é de carne, osso e vive no Planeta Terra, vc tá na dança também. Não dá pra pular de fase como no videogame. Não dá pra reclamar pro chefe, pedir ajuda pros universitários e não dá pra usar o pause. Tampouco dá pra pedir pra sair. Tem que encarar o que vem, tem que caprichar na autoconfiança e tem que ver o lado bom do que à primeira vista possa lhe parecer imensa bagunça. Os antropólogos interessados em estudar a memória humana deixaram registrado que ela é por definição a ligação entre passado, presente e futuro (G. Cohen, 1989). Ao mesmo tempo em que ela estoca informação passada, ela também monitora a saída de referências úteis pra se usar no presente e constrói planos futuros. Penso que essa sensação de "aceleração do tempo" pode ser útil pra gente estocar um bando de coisas e usá-las mais e melhor quando da necessidade de fazer os próximos planos. Ou seja, a razão pra tal densidade emocional deve ter ligação coerente com o uso que vc vai fazer disso em um futuro que tem anunciado que vai chegar mais rápido daqui pra frente. Portanto, companheiro, da próxima vez em que vier uma bola quadrada, não perde tempo, não quebra a cabeça tentando aparar as arestas não. Mata no peito e chuta pro gol, quadrada mesmo.
quinta-feira, 28 de maio de 2009
INEDITISMO
Depois do post anterior preciso admitir que este carrega certa contradição. Aprendi com um daqueles professores que se admira e venera, na faculdade, numa matéria optativa que tive a sorte de escolher: uma topada de joelho na quina da cama todo dia e você perde a perna! O inédito é bom, é bem-vindo, dá uma sacudida na gente, faz ficar alerta, ta ligado com a emoção e é o que dá o tempero na vida. Você procura por ineditismo quando escolhe seu destino de férias ou quando pede um prato diferente do menu. Ou quando decide parar de trabalhar pra fazer um mestrado, numa coisa que vc nunca estudou, numa língua que vc não domina e num país que vc não conhece direito. Então o inédito precisa ter uma certa aura de raridade, ele é pouco freqüente por definição, oras.
Sabem aquela formulinha da televisão que fica insistindo em te fazer crer que vale à pena ver mais do mesmo? “Pela primeira vez na televisão” ou “Inédito no Domingão do Faustão” (o que pode ser ainda inédito no Domingão do Faustão, peloamor?). Pois é, estão usando a velha e barata fórmula do ineditismo pra tentar capturar a sua atenção pra algo que já virou mais que previsível. Mas funciona.
Ando sentindo certa overdose do inédito. Estar aqui vivendo uma experiência que fica confinada em um único ano, com alta densidade de diferentes emoções, dá a sensação de que o dia seguinte é sempre o primeiro de alguma coisa. Agora então que ta chegando o verão e terminando a LSE, ta rolando uma alta freqüência de adeus. Tudo vai terminando aos poucos, todo dia, um adeus por dia, uma pessoa por semana. É uma sensação infinita de queda de montanha russa e parece que o fôlego não vai dar.
Acho que eu quero o conforto da minha rotina de volta, nunca achei que fosse dizer isso. Quero a vida cotidiana da qual a gente tanto reclama. Quero fazer o caminho do trabalho de olho fechado, ligar o rádio e encontrar percussão com o ronco da cuíca, pedir em padaria carioca um "minas quente com suco de laranja, por favor" e quero a certeza de que meus amigos vão estar às 20h em algum bar ali da Vila Madalena, tomando cerveja de garrafa em copinho de boteco. Quero mensagem da Nanda no celular domingo de manhã "vem tomar sol aqui" e da Fabi avisando "to no clube". Sei que depois de 1 ano de rotina eu vou estar subindo pelas paredes de novo, mas nesse momento não quero mais topar com o joelho na quina da minha cama, mas sim acordar tranqüila, abrir minha janela pra deixar entrar o sol e dar bom dia pra quem eu amo.
O frio na barriga é bom, mas tendo demais deve até matar. Amanhã tenho prova, nem deveria estar aqui desviando da quina de novo.
terça-feira, 12 de maio de 2009
SAUDOSISMO EM REVÉS
segunda-feira, 6 de abril de 2009
A INSUSTENTÁVEL INVISIBILIDADE DO SER

Uma das coisas que tenho observado nesse meu período fora de casa (leia-se: do Brasil, de perto da minha família e da minha rotina paulistana de bom salário e ótimo estilo de vida) é como as pessoas se relacionam (ou não se relacionam) umas com as outras no dia-a-dia desta cidade grande, caótica e multicultural que é Londres.
Deve ser porque aqui eu ando mais a pé, pego mais transporte público e interajo mais com desconhecidos na rua, do que eu eu estava habituada a fazer em Sampa, de dentro do meu carro e do conforto da minha vida que ia 'muito bem, obrigada'. Deve ser também porque aqui eu trabalho casualmente em eventos que acontecem num museu importante da cidade, servindo bebida, enchendo copo de vinho e carregando bandeja, onde pela primeira vez me vejo do outro lado da cena: não como a executiva que vai a conferências, mas como a garçonete que serve a água pras executivas. Essa é uma ocupação em que estou definitivamente coadjuvante na cena. Aliás, nem coadjuvante, porque se isso fosse uma peça de teatro eu estaria mais pra assistente de palco no back stage.
terça-feira, 31 de março de 2009
DE VOLTA PARA O FUTURO

Março merece um post. Eu faço aniversário em março. E é o mês que começa na ressaca de carnaval, não muito justo pra ele. Também cantaram por aí que "são as águas de março fechando o verão" * que dão o tom para esse mês. Hm... o Tom Jobim ta meio fora de contexto aqui em Londres. Pela primeira vez meu aniversário caiu no inverno, não teve nenhuma tempestade e isso é um tanto peculiar para uma pessoa carnavalesca como eu. Na verdade, não poderia reclamar porque o inverno até que tem uma vantagem, ele precede a primavera, e a primavera da Europa parece ser muito mais legal que o verão. Ela traz flores e novidade. A moda mais esperada entra com a primavera. As pessoas mudam de humor e de comportamento na rua, por causa da primavera. Isso é tão marcante que eu resolvi guardar em março um espaço nesse blog, mas na verdade ele foi escrito em abril. Típico da minha pessoa planejar esse tipo de coisa, vc vai dizer. Eu sei, mas é que dentro de mim março parecia mesmo merecer a devida atenção, ele não podia ser um buraco, uma ausência, um lapso bem no meu bloguinho! Ta explicado, né?
Bom, o que vcs vão ler aí pela frente começou motivado pelas cores da estação (não as flores, mas das roupas que estão invadindo as lojas) e terminou interrompido por uma manifestação. Foi certamente direcionado pras mulheres na minha cabeça e tem a despreocupação literária de um e-mail. Lá vai:
De repente me deu uma vontade de esquecer um pouco a vida acadêmica e voltar pro mundo da futilidade. Não sei por que, lembrei das minhas amigas, irmã, mãe e primas...rs. Deixa eu contar... a moda aqui tá toda fluorescente.
Sabe a sua caixa de caneta marca texto, que tem rosa, laranja, amarelo, verde e azul? Pois então, é isso que a primavera trouxe pro look londrino e não dou muito tempo pras ruas estarem enfestadas dessas cores. Se você fosse pensar nos anos 80 e eu te perguntasse qual a primeira pessoa famosa que vem à sua cabeça, acompanhada de um estilo marcante da década (tanto em cores quanto em atitude)? Fiz isso comigo mesma (tente me imaginar me perguntando isso) e deu... CINDY LAUPER! Sim, ela é perfeita pra ilustrar o que to querendo dizer, então pense nela agora. Não é novidade que a moda se alimenta de passado, já estivemos em todas as décadas mais de uma vez, desde o fim do século XX. O mais louco foi eu me dar conta de que, mesmo pagando uma de "não sou influenciável, não compro coisa que tá na moda" eu tenho que admitir que viajar no tempo é irresistível!!! Hoje mesmo comprei uma camiseta laranja... mas calma! (ela é listrada com cinza, reveza a sua cafonice com a sobriedade de uma cor quase-morta, portanto ainda não to louca). A Paka Lolo é que ia se dar bem se ainda existisse, viu? Isso já chegou aí? Não vale responder que a idéia da Ponte Estaiada em São Paulo foi concebida com base em influências de marca-texto amarelo-limão (nhé). Eu e minha prima tínhamos uma fantasia favorita que a gente definia dizendo "é de roqueira!" Consistia na sobreposição de duas camisetas tamanho G, uma roxa e outra verde-limão, acompanhadas de uma faixa trançada que servia tanto pra cintura quanto pro cabelo. Genial! Até isso voltou, impressionante como a moda é cíclica (o que não é novidade mas sempre consegue surpreender). Por exemplo, uma coisa que eu apostei comigo mesma que nunca - nunquinha mesmo - iria voltar é o topete das meninas. Sim, to-pe-teee, ele voltou! Aquele no fim dos 80 e início dos 90 (eu na pré-adolescência), quando as meninas de madeixas lisas empurravam o cabelo da metade da cabeça pra frente e as de madeixas crespas improvisavam empurrando só a franja mesmo e prendendo com uma fivelinha. Argh! Mais feio que anos 80 (já que eles até têm seu charme) são os inexpressivos 90, me desculpem. OK, vamos dar à influência de Amy Winehouse a devida importância porque aqui em Londres a cópia do look dela é nítida, com direito a laço de fita no cabelo, vestido de pin-ups e até pinta forjada. Mas daí a evoluir de uma cópia de Amy para uma nostalgia topeteira é demais pra minha capacidade de adaptação e contemplação do "novo".
Bom, fora isso ta rolando hoje (01/04/2009) uma manifestação gigante contra o G20 aqui do lado de casa, vcs devem saber. Moro a 1 estação do centro financeiro de Londres. Tem um helicóptero mala que não pára de sobrevoar a minha casa e tirar a minha concentração dos estudos (por isso vim pra internet, ieeei). Passei lá perto à tarde quando voltava de Notting Hill (aliás, tarde linda de sol e uns 14 graus, auge do 'verão', todo mundo animado) e fui me aproximando de curiosa. Tinha um monte de gente acampada, dançando, sorrindo e fazendo social. Parecia mais um 'revival' de woodstock bem ao estilo 'politizados bonitinhos' do Santa Cruz do que uma manifestação. Isso não é uma crítica, eu achei legal. Penso que o sentido de se mobilizar pode ser muito mais simples do que nós pensamos. Não é sobre invadir terras com foice, a la MST, mas sim levantar a bunda da cadeira, parar de fazer o que faz todo dia pra ir apoiar um ideal. É isso, APOIO, presença, mover-se em favor de uma causa. Falando nisso, na Antropologia, por influência do McLuhan, do Boyer e do Appadurai, clama-se que a mídia simboliza ausência. Por ser uma mediação ela pressupõe de primeira que a pessoa não ta presente, ta lá de longe recebendo uma informação massificada... ta aí porque a gente não tem atuação política, é a inércia da poltrona com TV! Voltando à causa, queria só dizer que é bonita, justa e necessária. Devíamos incluir esse tipo de hábito na nossa vidinha urbana classe média-alta. Tudo isso rolando e eu fazendo compras na Oxford Street ao voltar da casa da depiladora em Notting Hill !!! Tsc, tsc, tsc. Por isso que o Brasil não vai pra frente!
* ref.: "Águas de Março", de Antônio Carlos Jobim.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
O DIA EM QUE APRENDI A GOSTAR DE NEVE
Quando a melhor perspectiva que você tem pras próximas horas está entre a fronha e o edredom, dificilmente você vai sair da cama em menos de meia hora. Estava eu lá deitada, custando a acreditar que já era de manhã, com esperança de que o despertador nunca tocasse e lutando contra o frio que o aquecedor convidou pra entrar quando terminaram suas duas horinhas de trabalho automático (sempre no meio da madrugada). Entre um sonho e alguns devaneios de consciência, eles começam. São oito em ponto no relógio quando sussurram no meu ouvido Quarteto em Cy e MPB Quatro, revezando o tom de voz na música que eu escolhi pro despertador, na esperança de absorver um pouco de paz e já levantar de bom humor. As vozes femininas engatam “Se todos fossem iguais a você” ao mesmo tempo em que as masculinas vão de “Eu sei que vou te amar”, duas músicas diferentes, ambas do maestro soberano, Antônio Brasileiro (Tom Jobim), numa fusão que nem o melhor DJ na história conseguiria criar. É uma composicão brilhante que contrapõe duas reações opostas do amor: euforia e sofrimento (não sou eu que to dizendo, foi a galera do "Mal do século" que inventou isso).
Primeiro, o mundo ideal, o paraíso em “Se todos fossem iguais a você que maravilha viver”, “Existiria a verdade”, “Amar sem mentir nem sofrer”, etc, etc...
Mas logo na frase seguinte a outra música, a realidade, a ‘humanidade’: “Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver”, ahaha, essa sim é pra valer!
Então, é ao som dessa dualidade que começa o meu dia. Enrolo pra caramba até me convencer de que preciso mesmo ganhar tempo, afinal, a aula hoje é de Economia (embora meu mestrado seja em Antropologia, muito mais intuitivo) e o fim de semana foi intenso demais pra dar espaço pras páginas sobre Globalização e Migração da Força de Trabalho (!!). Portanto, minha última chance de não passar vergonha durante a aula está nas próximas 3 horas de biblioteca. Enrolo mais um pouco, convencida de que vale ficar driblando a razão, e ensaio um pensamento positivo mandando vibrações pra família, pro Brasil, pra minha casa e praticamente conversando até com Deus. Nesse momento todo tipo de crença tem mais chance comigo, vale tudo pra ficar um pouquinho mais na cama.
Quando começa a ficar ridículo, é sinal de que a razão tá ocupando o espaço dos devaneios e daí pra frente o sangue corre intenso. Acendo a luz, me visto rápido buscando alternativas não-pretas, tento tomar café não em ritmo de bateria, mas de Bossa Nova que é mais suave, escovo os dentes, fecho a mochila e to pronta pra sair. Não sem antes abrir a janela, claro, que não é bem uma janela e sim uma tentativa semi-frustrada de avistar uma fresta de céu morando abaixo do nível do mar, digo, da rua. Mas enfim, afasto a cortina e lá está ela, amontoada com grande classe em postura de balé, a neve! Tinha esquecido que a previsão pra hoje era de neve forte e que isso significaria um dia difícil. Eu tava morrendo de medo do frio que vinha por aí, de escorregar, de ficar de bode com o tempo e, pior, de ficar mais estressada que o povo que estuda economia na minha universidade. Bom, mas como isso não mudaria em nada a minha rotina de LSE, só lembro de pegar a máquina fotográfica, trocar meu sapato por uma bota que tem mais aderência (e salto alto, argh!), e sair no meu ritmo atrasado de sempre.
Opa! Quem disse que dá pra abrir a porta? Já saco a máquina pra registrar esse momento, inédito pra quem só viu neve previsível, de estação de esqui. A caminho do metrô fotografo tudo. Caramba, a rua ta linda. Vou pegar um ônibus pra ter chance de apreciar a paisagem. Dane-se que demora mais, a biblioteca pode esperar e eu leio 2 horas e meia em vez de três. Mas quem disse que tem ônibus? Na estação cruzo com uma amiga da LSE, ensaio passar reto fingindo que não vi, afinal to sempre com pressa e ela também deve estar. Mas, sei lá por que, achei que devia falar “oi”, numa manifestação da minha brasilidade (não sou britânica nem tenho tanta pressa assim, poxa). Ela responde com um sorriso e, enquanto vamos juntas tentar comprar o ticket dela pro interior da Inglaterra, ela me conta “to tentando pegar um trem pra casa, vc viu que cancelaram as aulas por causa da neve?”. What-the-hell, pensei! Depois de todo esse esforço pra sair da cama? Agora eu vou, po! Pelo menos aproveito pra ler muito, pra ler como nunca, o dia inteiro! E me livrar de uma vez dessa culpa de não ter estudado.
Minha viagem dura o dobro, os trens estão todos atrasados e o iPod mais uma vez me acompanhando no humor. Dessa vez não deixei rolar indi, rock nem as velhas companheiras percussões de samba, deixei espaço só pras pérolas clássicas: “Cole Porter”, quem diria em plena segunda feira, “Edith Piaf”, “Ella Fitzgerald” e “Edu Lobo”, to mais pra violino que pra bateria hoje, percebi. Estranhamente, tava rolando uma calma como há bastante tempo eu não via. As pessoas na estação esperavam pacientemente (impressive!) longos 10 minutos pelo trem que geralmente leva meio minuto pra chegar, o da linha Central vermelha. Ninguém se debateu pra entrar, o trem veio vazio (é a vantagem de se morar na primeira estação importante do extremo leste) e eu pude até viajar sentada (em hora de rush matinal)! Acompanhada por piano, baixo, violino e bons pensamentos, fui assim em paz até a estação de Holborn, agora já percebendo que o dia ia ser diferente. Estava refletindo: caramba, como o ritmo da cidade penetra na gente e influencia todas as nossas ações todos os dias! Em Londres isso ainda é mais grave que em São Paulo, eu sinto, porque em Londres as pessoas dizem ‘sorry’ antes mesmo de trombar com você, já que sabem que vão ter que passar empurrando mesmo. Em Londres vc anda a passos rápidos mesmo sem precisar correr. Já em São Paulo você se estressa com aquele trânsito bizarro e a correria também, mas seu corpo não acompanha esse ritmo acelerado (porque lá você fica dentro do carro sentado, escutando Eldorado FM e leva uma vida sedentária), o corpo vai nessa inércia. Sei lá.
Bom, desço em Holborn e a cidade tá ainda mais linda! Ando devagar pra não escorregar e as pessoas em volta também, super cuidadosas, pasmem. Parece domingo numa cidade baiana, todo mundo em ritmo de ‘passeio’. Fotografo tudo, nem parece que faço aquele caminho todos os dias. Mudo um pouco o trajeto porque ali do lado da avenida tem um parque, vou por ele. Descubro que uma bola de neve dura bastante tempo intacta na minha mão e que é uma delícia tentar limpar o vidro dos carros, tá tudo ‘fofo’. Muita gente em volta tira foto. Perto da biblioteca uma turma de chineses (ou coreanos, eu não soube diferenciar o idioma, desculpa) faz bolas gigantes e sai com elas rolando. Exploro um pouquinho mais as possibilidades que a água congelada abriu, faço diferentes formatos de bola, ensaio deixar a câmera apoiada sem congelar para bater foto automática, testo o grau de fofura do gelo em partes diferentes da rua. Mas preciso entrar. Um dia longo de leitura densa tá pela frente e devo aproveitar que não tem aula pra fazer dessa segunda o que costuma ser o meu domingo: livro na frente, chiclete pra driblar o sono e telefone no modo silencioso (mas sempre ligado). Recebo uma mensagem da amiga com quem cruzei na estação “You’re such a good friend, thanks for helping me and please be around”. Entro na biblio, vazia, o recado pelo auto falante é “hoje nossos serviços estão limitados devido ao mau tempo”, pronto vai virar feriado, penso. Regulo de novo o iPod que toca “Se todos fossem iguais a você” combinado com “Eu sei que vou te amar” e procuro logo um computador. Antes de começar a estudar qualquer coisa, eu sei que tenho muito pra escrever e preciso da música pra não entrar no mundo da razão e da Economia tão já. Elas com certeza vão censurar a minha vontade poética e tudo o que eu quiser escrever vai parecer ridículo ao final do texto. Melhor prevenir com música. Pela internet meus amigos já se pronunciam, todo mundo fez um boneco de neve (e mandou a foto, claro). Eu não tenho comigo o fio que descarrega as minhas fotos do caminho, mas tenho no hard disk da memória um punhado de sentimentos que dá pra transferir para o papel.
