segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

DESAPEGO



Vai embora?
Desapega.
Pôs sua história na mala?
Ah bom, sem passado não se constrói nada.
Tem saudade, né?
Escuta música, dança, festeja, bebe, curte, aprende a amar o novo.
De quem ficou? Ah, guarda a lembrança, um dia você reencontra.
Quando você volta, já sabe?
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Certeza, você pega o ritmo rapidinho de novo.
Medo de estranhar?
Pode se preparar, nada vai estar no mesmo lugar na volta.
O que se faz com isso?
Oras... nada, eu já disse, desapega.
Quem você gosta vai ter mudado,
Quem te inveja vai ter te traído,
Quem te ama vai ter te esperado.
E tudo passa a encaixar melhor.
E a vida que se leva no retorno?
Nuca é a mesma, levantou e saiu de fininho enquanto você ainda sonhava.
Por isso, meu amigo, aproveite a faxina que a ausência fez na sua casa e se poupe de ter que cuidar do velho, do excesso, do falso.
Agora, registra o que você viu quando chegou e nunca esquece.
Esse pouco de verdade que sobreviveu na superfície é tudo o que você tem.
A boa notícia: você não precisa de nada além.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A FIM DE VOLTAR


foto flickr

Foi tudo um sonho. Como eu previa, a sensação era de ter acordado de uma longa noite. De volta ao Brasil, a primeira impressão é de que nunca saí deste lugar. Sinto como se estivesse plantada à terra, uma muda trazida de volta à mata densa que é de árvores tropicais, aquelas que respiram em clima úmido e quente. Já me senti assim logo que pegamos a Marginal, saindo do aeroporto. Em casa, os espaços eram tão grandes comparados aos modestos cômodos londrinos que meu pulmão até expandiu, como se eu fosse respirar diferente. As duas janelas do quarto eram tão grandes, mas tão grandes que cheguei a estranhar a claridade. Minha cama então... era uma piscina inteira de maciez e espaço livre, de onde nem a ponta dos meus pés escapava no comprimento. As rádios tocam samba. Do lado de fora está o verão. Isto aqui é o paraíso, tive certeza. Não à toa meus amigos brincavam que "A fim de voltar" * sempre foi minha música: "Estou a fim de voltar e não sei se devo ou posso".

Passada a primeira semana, as coisas mudam um pouco. A viagem deixa de parecer um sonho comum e passa a lembrar a ficção científica. Você lembra de ter ouvido alguma vez, por obra da física quântica, que se fosse possível viajar no tempo a gente voltaria para o presente com idade conservada, porém as pessoas na Terra teriam envelhecido? É aquele papo de que pra quem viaja na velocidade da luz o tempo biológico passa diferente do tempo daqueles que ficaram, então a gente voltaria no ‘futuro’ mas com a vivacidade e o corpo de quando saímos, pois para nós 1 ano significou 10 anos na Terra. Pois bem, começo a estranhar as coisas daqui. Não gosto mais de dirigir. Minha preguiça é tanta que apelei pro transporte público paulista e virei passageira de ônibus. Profissão? Preciso dar uma diversificada, porque não consigo pensar em mim ocupando o mesmo cargo no mesmo tipo de ambiente. Continuo amando a noite, mas com muitas restrições: é longe? É caro? É lotado? Passei a amar São Paulo. Sim, porque antes eu até gostava, mas amor mesmo só tinha pelo Rio. Agora amo a avenida Paulista, outro dia fui de ponta a ponta a pé, do cinema HSBC Belas Artes ao sorvete de Miski do Alaska, não sem antes tomar chopp escuro no Opção, atrás do MASP. Amo a comida, o serviço, a excentricidade cultural e social que tem nesta cidade. Passei a não tolerar o trânsito, nem com música boa ou exercício de paciência. Amo os paulistas, odeio a corrupção que impede minha cidade de ser fantástica.

Tenho visto a vida em câmera lenta. Não que o ritmo tenha desacelerado por aqui, mas parece que o número de frames que compõe este filme, o número de ‘quadros por segundo’, tenha diminuído muito. Meus velhos amigos do Brasil, ainda não os compreendo de novo. Meus novos amigos de Londres, ainda não os libertei do meu comprometimento. Amo o caos, o verão e a idéia de que no ano que vem vai ter carnaval. Mas começo a inverter a nostalgia, deixando Londres intacta num pedacinho especial de saudade que ficou conservado numa câmara de tempo, protegida por flashes de lugares especiais e sons de risadas agora tão familiares. Desta cidade que eu via passar diante dos olhos no ritmo contemplativo da música do Caetano**, tenho esses flashes de memória acompanhados de uma alegria que se sabe solitária, que não é possível dividir com ninguém aqui, pois ninguém iria compreender. Quando a lembrança vem, eu só dou um sorriso de canto de boca e guardo isso pra mim. Acabei por me tocar de que o tempo, a maior ilusão da humanidade, é como uma substância reguladora, um hormônio. O tempo seleciona e julga sozinho o que te faz feliz e você só percebe a ação dele quando ele já passou, danado. Quero muito que passe o tempo que me permita voltar um dia pra lá, dessa vez com olhares de veterana, como quem se sente confortável numa segunda casa, mesmo sabendo que nada vai estar exatamente igual, com as mesmas pessoas e o mesmo espírito explorador. Sei que voltar no tempo é uma viagem possível em sonho e fico pensando que se eu fosse de novo pra Londres talvez parecesse que eu nunca saí. Quero voltar só para saber como é o gosto de pisar no passado, mesmo sabendo que 2009 só se pode ver novamente conservado em formol, quer dizer, conservado em tempo.

E por favor, não me belisca.

* A fim de voltar - Tim Maia
** London, London - Caetano Veloso (por Cibelle)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

BERLIM, LITUÂNIA


A capital alemã e o país báltico têm mais em comum do que pode soar numa primeira impressão. E a relação é simples: o resquício do socialismo. Me perguntaram o que eu achei dessas viagens e, de tanto relatar as impressões, acabei encontrando um traço forte em ambos: os contrastes.

Enquanto Berlim foi uma cidade literalmente dividida em ocidental e oriental (quase 30 anos de muro), a Lituânia foi parte da União Soviética por 50 anos. Hoje essa história ainda é muito presente, tanto na paisagem quanto no comportamento das pessoas. Primeiro, em ambas a gente encontra um monte daquelas mulheres loiras de cabelo curto e com postura meio masculina, denotando uma independência e uma força que pareceu ser questão de sobrevivência em tempos comunas. Duras, sérias, objetivas e bem pouco vaidosas, elas são um exemplo vivo e ambulante de como deve ter sido repressor e castrador o tempo da presença soviética. Em Berlim, particularmente, é curioso mas ao mesmo tempo encantador o contraste entre o ex lado oriental e o ex lado ocidental: o primeiro é charmoso, peculiar e livre, enquanto que o segundo lembra o centro comercial de Londres... boring, sem novidade. Impressiona, no ex lado oriental, como o espaço urbano é tomado de arte, grafites nos muros, casas abandonadas viraram reduto de artistas independentes expondo suas obras e nas ruas é raro ver duas pessoas vestidas com peças parecidas: tudo é muito criativo e um tanto subversivo. Acho até que uma comparação válida é dizer que a Berlim de hoje abriga a mesma ousadia e novidade que houve em Londres durante o movimento punk, na década de 70. Mas ao mesmo tempo, paira no ar uma aura 'nazi', como se alguma força invisível ainda nos observasse, tipo o Big Brother de 1984 (George Orwell). Estranho, amedrontador e fascinante ao mesmo tempo. Já em várias cidades da Lituânia o contraste não é nem sutil, é bem óbvio e agressivo. Casas antigas tradicionais são de madeira e pintadas em diversas cores, dando ao lugar a ambientação das histórias infantis que nos contaram, como Chapeuzinho Vermelho ou Branca de Neve, com raposa, esquilo, cogumelo e blue berry (um tanto esquisito para crianças tropicais). Mas logo ali do outro lado da rua tem prédios feios, duros, austeros e caindo aos pedaços, da época da URSS. Ficou claro que os soviéticos impuseram o que é feio, triste e indiferenciado. Pena. Duas religiões dividem o espaço físico através da presença massiva de seus templos: Católica Romana e Cristã Ortodoxa Russa, além da presença de mesquita e sinagoga. A Católica, curiosamente, tem muitas imagens de Cristo acompanhadas de entidades pagãs, uma loucura. Aliás, o paganismo é muito coerente num lugar que ainda hoje tem cerca de 30% de cobertura florestal, onde a ligação com a natureza é fortíssima. É um país de fazendeiros de subsistência e, arrisco dizer, de bruxas, já que a presença do feminino nessas religiões é bem marcante (lembre-se de que as grandes religiões monoteístas abafam a energia feminina, são machistas). Na capital, Vilnus, parece que as meninas, dessa vez bem diferentes daquelas de cabelo curto sem vaidade, estão ostentando com orgulho a liberdade de ser loira, alta, linda e patricinha.

Enquanto me perguntei porque o espírito comunista ainda sobrevive em alguns hábitos e no espaço público, deduzi que deve ser difícil para aquelas pessoas se libertar de um fantasma tão repressor. Depois fiquei pensando que o temido 'Big brother' poderia representar, na verdade, um grande pai. E ninguém gosta de ficar órfão de pai. Bom, sei lá, são lugares muito exóticos para uma brasileira permissiva, festeira e que só conhece o contraste do rico e do pobre, diferenças que ensaiam desaparecer completamente em época de carnaval. O Brasil tem seus contrastes naturais, culturais e econômicos, mas tem uma unidade ideológica que é invejável. O Brasil é feliz e sabe disso.

* foto do visor do celular do Toledo, meu companheiro de viagem a Berlim

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

WITH A LITTLE HELP FROM MY FRIENDS

foto: Mantvidas

Pode soar repetitivo falar de amizade depois do post anterior, mas esse pra mim é um tema incansável. Dissertação entregue, um restinho de verão ainda dando sopa... setembro é mês de viajar. Mas não farei esquema mochileiro 'low budget' dessa vez, pois com menos dinheiro e mais amigos é possível se levar uma vida 5 estrelas, da Liguria, na Itália, à Lituânia. Foi então esse o roteiro que eu fiz.

Depois de 1 ano ter passado voando, fica evidente como a gente mudou. Pode parecer exagero mas não é: um mestrado + a Inglaterra + low budget life te fazem uma pessoa MUITO melhor. O primeiro sinal disso é o nível da conversa que vc tem com seus amigos, culturalmente riquíssima e densa, não sei se porque se vive no meio acadêmico ou se é porque todo mundo fica mais sensível, mais maduro e mais filósofo neste contexto. O segundo sinal é o grau de proximidade com as pessoas. As amizades se fortalecem quando vc viaja com elas. Entre aquelas pessoas que você nunca vai deixar de amar pro resto da sua vida estão os amigos mais queridos que mochilam com você ou te recebem em casa. Nunca fui tão bem recebida em toda a minha vida (e olha que lastro receptivo de família árabe é difícil de igualar). E pra poder retribuir à altura, ficamos todos disputando esses anfitriões para uma futura visita ao Brasil, quando me esforço para convencer de que a gastronomia e a noite paulistanas fazem minha cidade valer à pena no roteiro, tanto quanto os paraísos carioca, nordestino e amazonense. Você vira um cidadão do mundo, se sente com poder pra fazer amigos nos quatro cantos e se empolga com a idéia da receber eles todos. Até já montei muitos roteiros futuros, esquecendo do detalhe de que estarei de volta ao mercado de trabalho e à rotina maluca quando eles vierem... porque isso é só um detalhe. Tamanho prazer em receber e trocar vem de uma convivência que só um ano como este, fora da realidade, pode te proporcionar. Eu costumava dizer que o hall onde eu morava virou no verão um grande acampamento de férias com os melhores amigos juntos. Desde o colegial eu não sei o que é isso. Tenho pena de que a gente não faça mais esse tipo de coisa na nossa rotina brazuca: raramente viajamos só com os amigos sem antes ter que planejar milianos. Não dividimos mais o chão do mesmo quarto, não provamos as comidas de todas as mães, não fazemos voto de amizade eterna, não andamos de mãos dadas com a melhor amiga... e tudo isso eu cansei de fazer nesse meu setembro. E posso jurar que 20 dias me fizeram uma pessoa diferente de novo. Voltando a Londres, to hospedada num casal de amigos fora de série e dei como meu endereço de correspondência a casa de um outro casal queridíssimo. A casa e a atenção deles é generosamente dividida comigo antes mesmo que eu tenha a chance de pedir. Portanto hoje não tenho nem endereço fixo mais, vivo dormindo na casa de um ou de outro dependendo da conveniência da balada, mas nunca me senti tão em casa!

Por isso que não existe solidão quando se cultiva bons amigos. Seus casamento pode um dia terminar, seus filhos vão crescer, seus pais um dia vão dessa pra uma melhor e seus irmãos não estarão mais do seu lado todos os dias. Já os seus amigos NUNCA perdem o posto. Como eu gosto de dizer, já que meu maior tesouro na vida sempre foi esse, "I get high with a little help from my friends"*. Tesekür ederim, grazie, ačiū, obrigada!

* With a little help from my friends - Beatles
Foto tirada pelo Mantvidas

sábado, 15 de agosto de 2009

HAPPINESS ONLY REAL WHEN SHARED





Tenho uma resposta pronta esperando para ser pedida. Do que mais gostei em Londres? Dos AMIGOS que fiz (ou mantive) aqui. Sem apelar pro clichê mas já apelando, confirmei minha crença de que na vida a melhor de todas as aquisições é a amizade. Se eu me virei pra aprender antropologia em inglês, foi porque conversei muito com pessoas, pedi a opinião delas, confiei-lhes meus medos e dúvidas nessa disciplina e contei com a sua parceria na hora de bolar estratégias pra estudar, memorizar, escolher, planejar. Se eu aguentei o inverno foi porque no quarto ao lado tinha uma lituana que parecia minha amiga de infância e na porta de quem eu batia até de madrugada quando queria contar peripécias. Se eu superei as decepções foi porque dei muita risada e não parei quieta em casa por conta dos meus amigos brasileiros, sempre os preferidos, sempre mantendo o humor, fazendo pão de queijo e marcando sarau de samba e bossa nova. Se este foi o ano mais intenso e divertido da minha vida foi por causa deles. Se existe algo que farei questão de cultivar é a amizade deles. "Happiness only real when shared" * é um dos maiores insights que um filme já me deu. Nada na vida tem graça se você não tiver com quem dividir a sua alegria. E tem um amigo meu peruano cujo amigo esteve aqui e fez um filminho que traduz a alegria de Londres quando chega a primavera. Claro que não é coincidência o fato de a beleza do filme estar em retratar a vida real dos amigos, como ele fez. A música também é dele (François Peglau). Ah, e reparem no que está escrito nesse muro atrás e à direita do cantor de rua.

* do filme "Into the Wild"

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

SEI QUE AINDA VOU VOLTAR

Porque o Brasil é o Brasil:

sábado, 1 de agosto de 2009

SERÁ QUE VOCÊ ME ENTENDE?

A difícil e excitante tarefa de entender o que se passa na cabeça alheia não é privilégio de planejador. Traduzir pensamentos em linguagem é naturalmente um desafio que desde sempre estimulou o ser humano a se virar com inúmeras técnicas, da mímica à agência de propaganda. Tente, por exemplo, imaginar como seria ter que traduzir pensamentos através de arte. É o que se pode conferir na exposição “Walking in my mind”, que está rolando na Hayward Gallery em Londres. Trata-se de “uma expedição ao misterioso processo criativo mental” de artistas plásticos. Dez artistas usaram de pintura a sinal de fumaça pra traduzir como é sua mente durante a criação (ou como eles gostariam que a gente acreditasse que ela é). E a gente anda lá no meio das instalações, como se estivesse naqueles brinquedos de parque de diversões, topando tanto com lata de refrigerante quanto com pornografia. O grande barato de viver a experiência de estar dentro da mente deles é reconhecer coisas que provavelmente também estariam na sua e tentar imaginar como você faria essa tradução. Um dos artistas, o Thomas Hirschhorn, declarou que a obra dele foi concebida com a intenção de criar condições para que aconteça ‘a atividade do pensamento’ por parte do espectador: ”quero provocar um diálogo ou um confronto na cabeça da outra pessoa”. Não tenham dúvida de que ele conseguiu.

Motivadas pela mesma pergunta, antropologia e psicologia já foram bem longe na tentativa de entender o pensamento humano, embora elas ostentem diferenças fundamentais. Enquanto a primeira tem uma preocupação mais coletiva e olha para o ‘ser social’, a segunda se volta para o ‘indivíduo’, procurando compreender seus processos mentais isoladamente. Não à toa, antropólogos e psicólogos costumam discordar bastante sobre particularizar demais (antropologia) ou generalizar demais (psicologia) uma verdade sobre o ser humano. Mas quando eles se entendem o resultado é muito interessante. Maurice Bloch, antropólogo professor na LSE (Londres), é exemplo vivo disso. Ele não teve a chance de passear dentro da cabeça de ninguém, como a exposição sugere que é possível, mas a sua produção acadêmica pode ser considerada fruto dessa tentativa, que é antropológica mas está cheia de insights da psicologia. Abordando a relação entre eventos, memória e narrativa, ele tenta provar que a transmissão do conhecimento, de geração para geração, não é só produto do pensamento mas também é causa. Afinal, nem tudo o que fica guardado aí na sua memória é 100% fiel aos acontecimentos, tem muita coisa que você confunde, muda, cria e passa adiante com outra formatação. Isso é criar história através de narrativa.

Depois da exposição e da universidade, te convido para um café e te faço uma pergunta: como você traduziria o que se passa na mente do seu consumidor? Se você está atento ao discurso das marcas e ao que declaram as pessoas que as consomem, em infindáveis grupos de pesquisa, você deve ser capaz de imaginar um ambiente “Walking in my mind” só com base nessa narrativas. Muito mais enriquecedor do que levar ao pé da letra o que o consumidor fala em sala de espelho. Penso no quanto ainda estamos presos a antigos padrões de pesquisa e de apresentação e às vezes tenho vontade de migrar para o mundo da arte pura, só pela certeza de que poderei traduzir melhor os pensamentos sem amarras de verba, prazos malucos, cliente muito conservador ou velhos hábitos. Será que você me entende?